12/10/2011

Lua cheia

Eu queria ver meu sangue pingando como minha tinta
Queria ver meu fogo, meu apelo na lua cheia
E queria que essas palavras fossem até ai, mesmo que pela janela
Você vai pensar em mim
E vai sentir a minha falta
Eu não morri no teu coração
E nessa lua cheia você vai pensar em mim
E vai pensar no que poderíamos ter vivido

Meu sangue cai por ti
Minha tinta pinta por ti
E nessa máquina chamada Terra
Eu vou colorir teu pensamento

Vai adormecer querendo um beijo meu
E vai sonhar comigo como nunca sonhou
E quando acordar, minha imagem vai aparecer pra você

E você vai me amar nesse instante.

07/10/2011

Pessoas

E tem pessoas que nem as diásporas explicam
E são vazias que nem as culturas decifram
E são burras que nem a idade as atualizam

E para as pessoas que não sabem nada
Só a modernidade da desterritorialização
Só a exclusão da marginalização
Sobra a experiência de uma rede online

E são pessoas que a individualização expulsa para uma festa
E lá, confraternizam com outras pessoas individualizadas
E individualizadas permanecem na manhã seguinte
Numa nuvem do Google
Numa frase do Facebook
Num passado do Orkut
Num álbum de fotografias pós-produzida


Pessoas que nem a globalização decifra
Que nem a memória retrata
Pessoas que nem os livros ensinam
Que nem a vergonha tapa


As pessoas individualizadas
Cheias de amigos virtuais
Nem as diásporas explicam
Nem a morte clareia
Nem a modernidade condena

03/10/2011

Ainda há nada...

E na virada eu cai
na folha só o rascunho
só os erros valeram
e eu sai da tua vida sem demorar

não adianta
não faz
não fala
não mente mais pra mim


e na calçada eu não caminho mais
e no tombo eu não levanto
e na sede eu não bebo
na abstinência eu uso

vai pra longe
morre pra mim
faz uma música
não me escreve mais

é só o álcool
é a morte dançando na memória
os pulsos lá no quintal
minha vida marginal


não tento achar nada
só a cinza
a ponta
a fumaça


guardo meu sangue pra taça
guardo minha vingança
ainda te pego na saída da vida
só um velho sem cabelo

01/10/2011

Metáfora

eu te odeio tanto que te quero
eu sofro tanto que te espero
eu te amo tanto que não quero

minha vida é assim
sem fim nem dó
sem sol nem lá

eu choro tanto que me desespero
minha vida é te amar tanto quanto lembrar
e sem ti sou ontem

eu te bebo como vinho
eu te ofendo com carinho
e te amo com todas minhas forças e fraquezas

meu futuro é assim
que dó de mim
que falta de ti aqui

eu te maltrato
te engano
te arranho tanto quanto quero

meu amor, meu ódio
é preto no branco
luz que se apaga

Luiz sempre será meu juiz
E eu, Flora, sempre serei a hora
Da pólvora

27/09/2011

Tô em liquidação




Aprendi que para vender uma verdade sempre é necessário parcelar uma vergonha
E para parcelar uma vergonha é sempre necessário abater um segredo
e se você quiser ainda vender um sonho, dê descontos de um sofrimento
É simples, entre em liquidação você mesmo
Com metade dos preços você pode ser você


Liquide sua alma
Parcele suas dores
Venda seus sonhos
Compre sua realidade
Financie sua vida


Assim não terá juros dos céus.



(Foto: Cafayate - Salta - Argentina 2011)

07/07/2011

Para um fotógrafo

E mesmo você sendo rei e eu não rainha
Mesmo você sendo o sonho e eu a realidade
Eu atravesso o desconhecido para te encontrar

Você me ganha na insanidade
E mesmo eu sendo boa com ou sem você
Você me ganha na insanidade

Eu faço pique-nique
Te levo flores roubadas
Te amo a cada manhã
Me entrego feito alma dilacerada
Brinco de sonho encantado
Faço minha vida ser tua se você for meu

Eu me completo nas tuas cores
Eu sei desenhar teus olhos
Eu toco teu rosto no invisível de uma fotografia
Eu te desejo, desconhecido que quero revelar, me perder e enlouquecer

Mesmo na montanha russa
Eu posso ser boa com ou sem você
Mas você já me ganhou nessas imagens que eu sonhei
Como um filme, eu te completo nas cores
Eu encontrei
E serei boa com ou sem você

Quero ser tua e ganhar essa insanidade de te amar pra sempre

30/06/2011

Coca-Cola

O branco da tela me desespera a ponto de não conseguir me traduzir, a arte me despedaça a ponto de não conseguir me expressar. O silêncio me arrebenta com as verdades escondidas. A escuridão me faz chorar como uma criança sentindo falta de alguém que nunca tive. A incerteza de um futuro compartilhado faz minha solidão reinar nesse presente catastrófico, não vejo mais as nuvens como algodão-doce, não creio mais na alma prateada, desisti da conclusão exacerbada. Não sei até quando o por-do-sol será rei, não sei até quando a música será romântica, perdi as contas dos desastres. Eu perdi o sono e ganhei a insônia refletindo. Queria fazer notícia de alguém como você e desenhar o contexto dos teus atos. A dúvida me aterroriza como uma arma engatilhada, pronta pra dar o tiro pelas costas. Nem sei mais de mim, nem sei mais de ninguém nesse mundo que já cansei de viver. Em círculos mastigantes e fatigantes as pessoas retornam a miséria de uma vida incalculada, explorada, fétida de mentiras e falsidades. Alguém como você foi um dia. E eu escuto na meia-noite o choro da vizinha, o golpe deferido, a faca entrando pela pele branca, agora vermelha. O branco se fez transparente, o vermelho agora é marron, os olhos agora são pedras, o corpo agora é moribundo. A morte chegou com sua coroa de espinhos e pétalas secas. Eu não vejo faces, nem sorrisos, eu vejo alguém como você foi e agora deixou de existir, alguém como eu sou e que deixarei de partir.

O corpo morto disse:


- Meu amor é como uma coca-cola de 3 litros - DOCE
- Minha amizade é uma coca-cola de 2 litros sem gás - FALSA
- Minha esperança é igual a coca-cola light - REMÉDIO
- Minha vida é igual a coca-cola mini-lata - RIDÍCULA
- Meus sonhos são a coca-cola zero - MESQUINHOS
- Meus escritos são a coca-cola Plus - MALDIÇÃO


O corpo morto disse ainda antes de entrar no céu:

Meu último desejo é um Big Mac com batatas fritas e uma coca-cola.

Um anjo pergunta: - Mais alguma coisa?

O corpo morto diz: - Sim, um milk shake de chocolate com muita calda.



O corpo morto se dissolve com o líquido preto da coca-cola e torna-se marron com a calda do milk shake.

Reverso do verso da mente que mentia

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